Sábado de manhã, no meio do feriado, foi hora de cuidar das madeixas louras.
Saída da Barra cedo para ir para Ipanema, ainda meio sonolenta, mas tudo por um cabelo mais bonito e por uma boa conversa com o Hans, cujo salão frequento desde 2001. Cabelereiro que vira amigo é isso.
Enquanto esperava para ser atendida, resolvi pegar uma revista para ler e acabei lendo um artigo que adorei. Quase saio do salão levando a revista, que era de março, porque queria que algumas pessoas também pudessem ler. Mas, resolvi procurar na internet e encontrei o blog do autor. Adorei o que ele escreveu e foi praticamente paixão a 1a. leitura. Vou mandar um e-mail para ele falando que não estou na promoção e nem desesperada por uma promoção (embora eu fique linda em um vestido preto), mas lendo o que ele escreve é difícil não se apaixonar :o)
Conheço bastante gente que pegou peça na promoção e hoje finge que é feliz ou vive na superficialidade. Não só mulheres, os homens também estão em um cenário parecido. Com dificuldade de viver a vida sem ter alguém e, por desespero acabam desperdiçando uma vida e perdendo a oportunidade de viver bem com a própria companhia, para aí sim, estar preparado para viver bem na companhia de um outro. Concordo com o Antonio Prata: sem comprar na promoção! Vale a postagem no blog.
Bazar & casar: pegar ou largar
Antonio Prata
(publicado na Vogue-março/2008)
“Olha o vestidinho wrap dress de jersey, galera! O vestidinho caiu de cem para oitenta e quatro e noventa!” – anunciava o locutor, com aquela animação de FM, no bazar de uma grife famosa. “Oitenta e quatro e noventa! Não dá pra perder, é pegar ou largar!”, ele insistia, e eu, que estava ali só para comprar uma calça jeans, que nem sabia que bazar tinha locutor ou o que diabos seria o tal wrap dress de jersey, me peguei andando, aflito, em direção à arara no fundo do galpão, com medo de estar perdendo aquela incrível oportunidade de compra.
Parei a uns dois metros da balbúrdia, assustado: uma dúzia de mulheres ofegantes arrancava os vestidos das araras e os viravam do avesso, atrás das etiquetas, como se encontrar a letra certa -- P, M ou G – lhes fosse abrir as portas do paraíso. Eu não sabia que esse negócio de bazar era tão sério.
Enquanto esperava na fila do caixa -- minha calça jeans pendurada no braço direito, como o pano de prato de um garçom -- me dei conta de que a cena dos vestidos não existia isolada, era uma dessas metonímias que a vida nos apresenta, pequenas amostras com as quais, fazendo uma simples regra de três, conseguimos vislumbrar o X de alguma questão superior. Pois se a balbúrdia dos vestidinhos – “caiu pra R$ 59,90! Loucuuura!” -- pouco me iluminou sobre os mistérios do wrap dress de jersey, acabou sendo muito elucidativa sobre o comportamento de uma parcela das mulheres da minha geração: as moças estão em busca de maridos com a ansiedade furiosa das compradoras do bazar. Mal encontram um homem solteiro, mais ou menos do tamanho e modelo que procuravam, já vão logo olhando a etiqueta, querendo saber se o tecido é de qualidade, se não vai desbotar assim que lavar ou soltar a costura no primeiro aperto.
O que faz com que, dos vinte e cinco para cima, as mulheres olhem os homens encostados no balcão do bar (ou da ponte-aérea, ou da Casa do Pão de Queijo, ou da, ou da, ou da...) como se fossem as últimas peças disponíveis na arara? E por que, mal disseram olá, elas já pensam se ele preferiria um labrador ou um border collie na casa que construirão juntos, depois do nascimento do segundo filho (uma menina)?
Em minhas imprecisas pesquisas, os hormônios aparecem como os maiores vilões, acusados de ser tão impertinentes quanto o cara do microfone, a gritar “os óvulos estão acabando! Os óvulos estão acabando!” nos ouvidos das pobres moças em flor. Minhas caras, culpem o tempo em seu devido tempo. Quem tem trinta anos hoje ainda tem óvulo pra dedéu. Não é preciso correr entre uma arara e outra, nem sofrer quando souber que uma boa peça, que estava dando sopa por aí, caiu nas mãos da concorrência. Mesmo porque, com os avanços da medicina, tem muita mulher com idade para ser avó dando entrada na maternidade.
Se a necessidade biológica não é a força motriz da ansiedade casadoira, o que seria? Carência, pura e simples, aparece em segundo lugar em minhas enquetes. As mulheres consultadas dizem ter síndrome de abstinência, às vezes com delirium tremens se, na tríade dominical DVD-Pipoca-Namorado, o terceiro elemento falta por mais de quatro semanas. Será que é isso? O medo de ficarem sozinhas as lança atrás de um projeto de longo prazo, envolvendo damas de honra, FGTS, babás no fim de semana, contrato judicial e idas freqüentes à Alô bebê?
Curioso é que essas mulheres são as filhas de 68, das mães que queimaram soutiens e de peito aberto, literalmente, foram atrás de suas independências. Então as meninas que nasceram supostamente libertas dos grilhões da falocracia chegam à maioridade e, em vez de se ajoelharem diante de uma foto de Simone de Beauvoir, acendem velas para Branca de Neve?
Não estou falando do desejo de se apaixonar, de viver uma história arrebatadora, de ter as pernas trêmulas e a voz gaga quando o cara surge. O que vejo, no fundo dos olhos de algumas mulheres, é muito mais o desejo de encontrar alguém para dividir um título familiar do Clube Pinheiros do que para tomar champanhe em Paris, e acho isso triste. Porque o título familiar, as idas à Alô bebê e a união dos FGTSs para comprarem uma casa juntos, onde crianças aprenderão a andar embaixo de uma jabuticabeira e ganharão um cachorrinho (labrador ou border collie?) só pode dar certo – na visão desse ignorante, que nem sabe o que é um vestidinho wrap dress de jersei, que também quer ser feliz com uma mulher e sofre quando está sozinho, não só aos domingos – se for a conseqüência inevitável do amor arrebatador, das pernas trêmulas, do desejo incontrolável e recorrente de tomar champanhe em Paris. (Ou Kaiser quente em Jundiaí, que seja, desde que com ele, desde que com ela).
O amor e o tesão são forças por demais poderosas – e, no entanto, delicadas – para serem trocadas pela serenidade de uma jabuticabeira. Viva Dionísio! Abaixo a planilha Excel! Eu vejo por aí os casais precocemente infelizes, que nasceram da fuga da solidão, e quase não acredito. Quando tivermos netos poderemos aceitar que o companheirismo tenha brotado ali onde antes crescia o desejo. Não agora. Esqueçam o locutor. Não comprem na promoção.
Amigo de Si Mesmo...
1 semana atrás