Postagem anterior em julho/07.
"Quanto ao diário, fico sem jeito de escrever nele bobagens. Acho que vou copiar nele as poesias que me agradam, os pedaços de livro que me agradam".
É frase de Clarice. Parece o meu blog. Eu havia publicado a postagem "Pedaços de Clarice" antes de ter lido esse livro... Aqui seguem mais Pedaços de Clarice.
Pedaços do livro Minhas Queridas: Cartas que ela escrevia para as irmãs.
Clarice é inteira, intensa, transparente.
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Tudo está correndo bem, só que estou enervada com esse "estado de viagem".
O que importa na vida é estar junto de quem se gosta.
É chatíssmo não morar.
Cuide-se como se você fosse de ouro, ponha-se você mesma de vez em quando numa redoma e poupe-se.
Quero aliviar um pouco o coração com algumas linhas.
As coisas continuam igual. Eu quase não saio, levo uma vida dentro de casa, o que não me desagrada. Quando saio gosto muito. Fico ou procuro ficar o mais tempo possível no meu quarto, o que me agrada. Produro fazer e cumprir um programa de certa pureza; o que é difícil pelas contínuas interferências, mas não impossível. Procuro também fazer com que minha vida não seja cercada de excessos cômodos, o que me abafaria.
Tenho mais o que fazer: por exemplo, ficar sentada olhando para a parede.
E em breve certamente arranjarei um programa em que eu me isole um pouco mais e possa ler ou não ler, como me agradar.
Parece que é escrevendo que se podem dizer certas coisas.
Você tem o célebre medo de ferir e entristecer e diz pouco ou quase nada.
Quanto à vida em geral... ela vai em geral mesmo. Não há novidades. Corpo e alma foram feitos para na hora de dormir estarem cansados.
Detesto pessoas que se parecem comigo...
Ando ocupada com a dispersão de minha vida.
Não há no mundo inteiro coisa melhor do que carta.
Às vezes não se tem o que escrever mesmo quando se tem o que falar.
Há muita coisa bonita no mundo. Ser irmão é uma delas.
Que há no seu trabalho? Que sucede de novo? Tem trabalhado muito? É obrigada a ir todos os dias sem poder descansar um dia aqui, outro ali?
Sou em geral tão anormal e ninguém me compreende apoiando.
Eu não posso nem me arrepender porque esse dia passado na cama (são 3 horas da tarde e escrevo deitada) está me fazendo tanto bem que eu resolvi passar um dia por semana deitada.
Tenho receio de ficar permanentemente fatigada. Eu procuro fazer o que se deve fazer, e como se deve ser, e me adaptar ao ambiente em que vivo - tudo isso eu consigo, mas com o prejuízo do meu equílibrio íntimo, eu o sinto.
O que tem me perturbado intimamente é que as coisas do mundo chegaram para mim a um certo ponto em que eu tenho que saber como encará-las. Sempre encarei com revolta. Mas ao mesmo tempo que sinto necessidade de fazer alguma coisa, sinto que não tenho meios. Talvez eu não esteja vendo o problema maduro, pode ser que a solução venha daqui a anos, não sei.
Não sei se porque gasto muito a cabeça pensando, repensando e me preocupando e resolvendo mentalmente todos os problemas, estou sem memória.
Estou lendo bastante, estou procurando através dos livros chegar a uma conclusão sobre as coisas que me parecem tão confusas como nunca.
Se há uma coisa que eu adoro é ver bicho.
Naturalmente tem dias em que o coração está anuviado: nem dias: durante um só dia tudo fica claro e escuro e de novo tudo claro. O que é preciso é não ir demais contra a onda. A gente faz como quando toma banho num mar: procura subir e descer com a onda. Isso é uma forma de lutar: esperar, ter paciência, perdoar, amar os outros. E cada dia aperfeiçoar o dia. Tudo isso está parecendo idiota... Mas até que não é.
Ninguém tem o direito de torcer o moldar demais destinos, mesmo que sejam dos próprios filhos, suponho.
E por mais trabalho que você tenha, não descuide da vaidade. Faça o penteado mais lindo. Mas, por favor, acredite que você conseguirá a mesma soma de produção mantendo ao mesmo tempo os nervos relaxados. Chegue junto do espelho, faça a sua cara mais repousada e calma - e com essa expressão continue o trabalho. Você vai ver que ganha uma nova força. Essa história de olhar no espelho e fazer uma expressão, tem raízes científicas, se você quer se convencer. Tem uma teoria de emoções que diz que a gente fica alegre porque ri. Sem aprofundar mais, ela tem uma parte verdadeira.
Os meses passam depressa, felizmente. Os dias às vezes é que não passam.
Saúde, sossego, paciência e inspiração. São quatro musas eficientes.
Mesmo que essa crença seja uma descrença.
Tenho levado a vida exteriormente calma e interiormente ocupada.
Eu sempre disse a mim mesma que o amor que os outros têm pela gente cria mais deveres do que o amor que a gente tem pelos outros.
Tudo é pretexto para o abandono de si mesmo e para a preguiça mental. Estou feliz e o que é preciso mesmo é, como você sempre diz, construir um pouco minha felicidade.
A boa vontade é um fator muito mais importante do que a gente pensa. A gente não muda um pouco de ponto de vista quanto às coisas porque tem medo de sair da própria pele e do próprio sistema. Mas às vezes basta resolver estar simples, e o milagre se realiza: tudo fica mais simples.
Não evoluí nada, não atingi nada. Continuo com os pés no ar, continuo vaga e sonhadora, deslocando de algum modo o sentido da vida. Dá vontade de gritar de tanta impotência.
Parece que estou agora me habituando; tenho estado mais alegre e mais conformada, e mais capaz de me dominar e de abafar meus sonhos inúteis. Mas posso dizer que desse período me ficou mesmo uma repugnância de sofrimento, como se tem repugnância de ferida que não cura.
Nem todos são bastante fortes para suportar não ter ambiente propriamente. É preciso ter muita coragem para ter vida nova.
Eu talvez não seja a pessoa indicada para pedir aos outros que não se preocupem inutilmente: sou vunerável às menores bobagens, às mínimas palavras ditas, a olhares até, e sobretudo, a imaginações. Mas, exatamente por ser assim procuro combater essa propensão doentia, é que posso pedir aos outros que não resvalem por esse caminho.
Não há nada que canse tanto, como se torturar com preocupações.
Você tem rido, achado graça nas coisas, tido bom humor? Tem tido tempo moral de olhar um pouco ao redor, com um olhar tranquilo? Tem tido gosto em repousar vendo uma revista? Tem se dado presentes, tem feito favores a você mesma, tem tirado folgas?
Espero um dia sair deste círculo vicioso em que minha "alma" caiu.
Cuide-se bem, nunca deixe que o cansaço tome conta de você, nunca se deixe levar por nenhuma depressão. Seja alegre, seja feliz. Faça higiene mental e moral.
Corte as preocupações inúteis, raciocine com clareza e veja que as coisas amolarão do mesmo modo, quer você se preocupe ou não. Não queira fazer as coisas com perfeição, à custa de sua tranquilidade.
Para mim não existem nunca lugares, existem pessoas.
Os exercícios consistem em respiração, em relaxamento muscular. Vamos ver se viro super-homem sem mudar de sexo.
Agora vou terminar porque tenho que começar a arrumar a mala. Vocês não podem imaginar como estamos cansados de viagens e mudanças. Estamos espiritualmente cansados, fisicamente cansados. O corpo e a cabeça ficam constantemente procurando uma adaptação, a gente fica fora de foco, sem saber mais o que é e o que não é. Nem meu anjo da guarda sabe mais onde moro.
Parece que é mesmo meu destino. Forço de todos os lados para mudá-lo, mas vejo que não tenho força para tanto.
Me sinto aliviada, animada e contente. A alma é misteriosa, mas o corpo é muito mais.
Deus abençoe vocês e proteja vocês e lhes dê saúde, alegria, tranquilidade de espírito, felicidade, paciência, ânimo, coragem, mil alegrias, milhões de alegrias, muita saúde, muitas recompensas, paz de espírito, fé, compreensão de vocês mesmas e dos outros, muita felicidade.
Eu estava mesmo desafiando o mundo naquela hora e provando a todos do que sou capaz! E que sou capaz de aguentar minhas emoções, e que sou capaz de tudo! Era isso que eu estava querendo, por modos indiretos, provar, e queria ver qual seria a resposta do mundo! A resposta do mundo foi a seguinte: "nós não estamos aqui para julgar, há muita coisa entre o céu e a terra que não compreendemos, e nós damos liberdade a quem tomar liberdade, nós respeitamos quem tomar liberdade.
Estou aprendendo muito com meu próprio trabalho.
Uma das coisas mais maravilhosas da vida é que o aprendizado é contínuo, a gente está sempre aprendendo alguma coisa.
O que importa mesmo é "fazer" - fazer coisas.
Não adianta se preocupar pois para cada problema existem muitas soluções.
Um dia desses tive um ódio muito forte, coisa que eu nunca me permiti; era mais uma necessidade de ódio. Então escrevi um conto chamado "O Búfalo", tão, tão forte. É a história de uma mulher que vai ao Jardim Zoológico para aprender com os bichos como odiar. Mas é primavera e os animais estão mansos, mesmo o leão lambe a testa da leoa. Essa mulher, que só aprendeu a perdoar e a se resignar e amar, precisa pelo menos uma vez tocar no ódio de que é feito o seu perdão. Entende-se que ninguém tem culpa: ela está tentando odiar um homem cujo "único crime impunível" é não amá-la. Na verdade, por mais irracional que fosse, ela o odiava, só que não conseguia sentir em cheio o próprio ódio. Depois é que vem o búfalo. Mas estou vendo que estou matando a história, contando-a desse jeito. Um dia vocês verão.
Não se canse demais com a mudança, vá fazendo tudo aos poucos, tem tempo. E não ligue pequenas coisas, não se impaciente com a lentidão de várias coisas.
Vou pegar o dinheiro e comprar tudo de roupas para mim, pois ando bem desfalcada ou com roupa já enjoada demais.
... Se conseguir vencer preguiça e desânimo...
O vestido é muito bonito, branco, e tão justo e "sexy" que até pareço uma coisa que não sou, ou que, pelo menos, não pretendo ser...
A verdade é que não consigo me concentrar. E o dia passa, partido em mil coisas vagas ou concretas, mas partido.
Por incrível que pareça, tenho medo de minha futura desadaptação. Já me parece sinceramente não pertencer mais a nenhum lugar, tenho medo disso. Mas vamos deixar o futuro ao futuro.
Ele age como um "estranho" interessado, e não em meu nome direto.
As frases estão complicadas, mas o sentimento não.
Não há nada como um dia atrás do outro para repor às vezes as coisas nos lugares a que pertencem. Sendo que, por Deus, a gente tem que ajudar a repô-las ou pô-las.
Tenho lido alguma coisa (eu tinha passado cerca de três anos incapaz de me concentrar a ponto de chegar à metade de um livro).
Então, eu , que sempre evito me colocar em situação de poder ser rejeitada, fiquei mais corajosa.
É ridículo como hesito em decidir pequenas coisas, como sinto a necessidade de pedir conselhos, e depois, é claro, fico revoltada por ter aceito os conselhos, por ser tão indecisa... É um círculo vicioso que precisava ser quebrado. Mas tudo vai dar certo, e me arranjarei bem.
A relativa independência vai lhe ensinar muita coisa.
Quando você tiver visto a peça de Nelson Rodrigues me escreva. Queria saber que mais ele introduziu na peça, além do que já costumava e que já era bastante ousado.
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1 mês atrás
2 comentários:
Acabei de ler o livro e adorei. Por acaso lembras em quais páginas estão estes trechos:
"O que importa na vida é estar junto de quem se gosta."
E:
"Parece que escrevendo é que se pode dizer certas coisas."
Obrigada,
Oi Fabiana,
Os trechos estão:
Página 40 - 2a. linha de baixo para cima.
e
Página 68 - 6a. linha de cima para baixo.
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